Como regressar ao trabalho sob a sela com um cavalo após uma pausa?
Por vezes pode acontecer que sejamos obrigados a dar ao nosso cavalo uma pausa do trabalho sob a sela durante algum tempo. Pode haver muitas razões — uma lesão do cavalo ou nossa, uma gravidez numa égua, um descanso mais longo após uma época dura ou outras situações da vida. Independentemente da razão, se a pausa durou algumas semanas ou mais, devemos lembrar-nos de reintroduzir o nosso corcel no trabalho sob a sela de forma gradual. Neste artigo vai ficar a saber o que lembrar antes de começar o trabalho a sério e como preparar o cavalo para cargas de trabalho crescentes, para que isso não afete negativamente a sua saúde.
Antes de começar o trabalho sob a sela.
Se o seu cavalo teve uma pausa de vários meses no trabalho sob a sela, pode ter a certeza de que a sua condição mudou muito significativamente. Isto aplica-se também a cavalos que passam a maior parte do tempo no paddock. Claro que o movimento constante nessa forma é muito benéfico e certamente facilitará um regresso mais rápido ao trabalho, mas o esforço que a monta sob a sela e sob o peso do cavaleiro representa para o cavalo é muito maior do que muitas horas a caminhar pelo paddock (a menos que seja uma pastagem grande e relvada, muitos cavalos podem ficar parados a maior parte do tempo passado no exterior).
É importante não confundir a energia do cavalo nos primeiros dias após a pausa com a sua condição real. O facto de o seu cavalo parecer disposto a trabalhar, tentar acelerar ou até corcovear apenas mostra que quer libertar-se do excesso de energia acumulada. Isto não tem nada a ver com a prontidão do seu corpo para um esforço acrescido.
Antes de começar de novo o treino (ou na sua fase inicial), no entanto, vale a pena prestar atenção a certas coisas, graças às quais todo o processo vai decorrer de forma suave e segura.
Uma visita ao veterinário. Especialmente se o seu cavalo está a regressar ao trabalho sob a sela após uma lesão ou outro trauma. É o veterinário quem, depois de verificar o estado de saúde do cavalo, deve dar a «luz verde» final para o regresso sob a sela, e é com ele que deve consultar o plano de trabalho para os próximos meses (tipo e duração do treino). Se, no entanto, o nosso cavalo teve uma pausa por outra razão, mas foi longa, então também se recomenda uma visita de controlo ao veterinário. É também boa ideia verificar o estado dos dentes e, eventualmente, limá-los ou outro procedimento, especialmente se estamos a lidar com um cavalo jovem.
Uma visita do ferrador. Independentemente de o nosso cavalo estar ferrado, ou de termos decidido tirar as ferraduras durante a pausa, antes de o trabalho sob a sela começar a todo o vapor devemos certificar-nos de que os cascos do nosso cavalo estão em boas condições.
Ajuste do arreio. Mesmo que vamos usar exatamente a mesma sela que antes da pausa, devemos certificar-nos de que ela ainda assenta bem no nosso cavalo e, eventualmente, fazer correções. Muitos cavalos ganham peso após um descanso mais longo, e a sua massa muscular também muda. É possível que seja necessária uma mudança da largura do arco ou outra correção. Lembre-se de que até um ligeiro problema de ajuste da sela pode ser causa de desconforto para o cavalo e afetar negativamente o seu movimento e a sua vontade de trabalhar.
Alimentação. Na fase inicial, quando as montas são relativamente curtas, uma mudança de alimentação não é necessária. No entanto, à medida que o esforço aumenta, tem de pensar em aumentar a quantidade de ração concentrada dada, que costuma ser fortemente limitada se o cavalo não faz qualquer trabalho. Nesta situação, no entanto, tem de ter em conta muitas coisas, como a condição do nosso cavalo (ganhou peso ou talvez tenha perdido peso durante a pausa?), como aproveita a ração e quanto esforço as montas lhe exigem.
Como regressar ao trabalho sob a sela de forma gradual
Vale sempre a pena fazer um plano para os primeiros meses quando retomamos o treino. Isto não significa, no entanto, que tenhamos de nos ater a ele de forma rígida. Não podemos esquecer o bom senso e a observação atenta do nosso cavalo e da forma como reage às cargas de trabalho crescentes. Se virmos suor excessivo, tropeções, respiração pesada ou falta de vontade de ir para a frente, são indicações claras para abrandar o ritmo. O sistema respiratório precisa geralmente de cerca de dois meses para regressar à capacidade anterior, e o sistema musculoesquelético ainda mais tempo.
A base é compreender que aqui não há atalhos e que reconstruir a condição do nosso cavalo será um processo longo que exige paciência e regularidade na ação.
Trabalho à guia. Vale a pena começar o trabalho com o trabalho à guia. Isto não só vai permitir ao nosso cavalo libertar-se do excesso de energia de forma segura e torná-lo mais calmo e mais concentrado durante a monta, como também vai ajudá-lo a habituar-se a um maior esforço, ainda sem o peso do cavaleiro. O trabalho à guia não deve durar mais de 10-15 minutos, com pelo menos uma mudança de direção pelo meio. Se o nosso cavalo está a regressar sob a sela após uma lesão numa articulação ou tendão, então pode haver contraindicações ao trabalho à guia (esforço excessivo sobre as pernas ao trabalhar num círculo pequeno) e devemos consultar esta opção com o veterinário.
As primeiras montas sob a sela.
Se estamos a lidar com um cavalo mais velho e experiente que antes da pausa esteve em treino regular durante anos, então receber de novo a sela e o cavaleiro não deve ser problema nenhum. Se, no entanto, estamos a trabalhar com um cavalo jovem, será mais seguro habituá-lo a esta situação gradualmente. Para isso, podemos colocar-lhe a sela nos primeiros dias para o trabalho à guia, ou enquanto caminha no passador, se tivermos acesso a um. Depois podemos pedir a alguém que ajude e segure o cavalo enquanto nos inclinamos sobre o dorso, idealmente na box ou no redondel. Se o cavalo não reagir de forma nervosa à inclinação, podemos então montar em segurança.
As primeiras semanas. Nesta fase devemos trabalhar apenas nos andamentos mais baixos e aumentar as cargas de trabalho muito gradualmente. Um plano de exemplo poderia ter este aspeto:
- As primeiras duas semanas – 20-30 minutos de passo durante 5-6 dias por semana, idealmente em longas linhas retas
- As três-quatro semanas seguintes — acrescente gradualmente o trote, começando por cinco minutos com pausas (por exemplo, 2 × 2,5 min). Após este tempo o cavalo já deve conseguir trotar durante cerca de 20 min.
- Após cerca de um mês podemos começar a acrescentar um galope calmo, começando por 2 – 3 min.
Lembre-se de montar nas primeiras semanas num piso adequado e pouco profundo, ou seja, relva ou areia no picadeiro. O movimento em areia profunda ou lama é exigente para os tendões e pode levar a sobrecarga ou até a lesão.
Cuide não só da condição física, mas também mental do seu cavalo e de que o treino não seja (na medida do possível) muito monótono. Faça com frequência transições ou mudanças de direção, vá também passear ao ar livre se tiver essa oportunidade e se tiver a certeza de que tem controlo total sobre o seu cavalo fora do picadeiro.
Preste também mais atenção do que o habitual ao comportamento do seu cavalo e a quaisquer sinais que possam indicar dor ou desconforto. É muito difícil notar dor ou dormência muscular à primeira vista, mas pode manifestar-se em rigidez dos andamentos, incapacidade de relaxar o dorso, ou relutsância em ir para a frente, muitas vezes confundida erradamente com preguiça.